13/07/2023 10:20
Vivendo e aprendendo a jogar, vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar
Água mole em pedra dura, mais vale que dois voando
Se eu nascesse assim pra lua, não estaria trabalhando...
Composição: Guilherme Arantes.
Nos séculos XX/XXI, a humanidade foi impactada por um enorme salto técnico e tecnológico com a teoria celular na biologia e a patologia celular na medicina. Todos estes avanços tecnológicos, a exemplo das vacinas e dos antibióticos, prolongaram a vida e proporcionaram um importantíssimo aumento na longevidade dos humanos. Conquistas celebradas socialmente pela valorização do corpo e das tecnologias que prometiam curá-lo, embelezá-lo e salvá-lo da morte: os medicamentos, as mil formas e os métodos de ginástica, o crescimento das práticas esportivas, das dietas, das cirurgias estéticas... um sem-número de possibilidades que favoreceram a valorização da saúde e da beleza, não exatamente nesta ordem, nem na mesma proporção.
Por fim, o século XXI entra de maneira irreversível na biotecnologia com a conquista de que, finalmente, podemos controlar o genoma, um marco na história da ciência: “O homem acaba de decifrar 97% das informações para criar a si mesmo, dando corpo a um dos mais antigos sonhos inscritos na ciência”.
O formidável avanço da medicina e de todas as inovações sobre a saúde e o controle das doenças não devem desconsiderar, no entanto, as questões de ordem ética, política e cultural que as envolvem e as constituem. Vejamos como coloca estas questões o filósofo Adalton Novaes: "o tema é imenso e pede conhecimento de várias ordens”, e complementa: “no nível do pensamento, as novas descobertas científicas apontam para uma desordem mental em estado quase perfeito: tomando apenas dois exemplos, pode-se dizer que a noção de natureza não é a mesma que animou a história das ideias e que o próprio conceito de subjetividade está posto em questão”.
É preciso não esquecer, meninos e meninas, que a ciência não deve prescindir da inventividade e da arte, matérias-primas de nossa autocriação e da nossa imprescindível vontade de superação. É preciso não esquecer, diz Adalton Novaes, retomando Merleau-Ponty, que “pensar o corpo apenas como máquina — ou, no limite, sua substituição por ‘máquinas inteligentes’ — é o mesmo que ver sem perceber”. Afinal, o homem é todo inteiro paixão: lida permanentemente com o medo, com o amor, com a esperança, com a glória, com a amizade etc. Se entendermos o corpo como “totalidade aberta”, como quer Merleau-Ponty, podemos começar a solucionar o dilema:
Não é o olho que vê. Não é a alma. É o corpo como totalidade aberta. […] A visão dos sons ou a audição das cores ocorre como a unidade do olhar pelos dois olhos: [a visão e a audição ocorrem] na medida em que meu corpo é não uma soma de órgãos justapostos, mas uma síntese sinérgica na qual todas as funções são retomadas e ligadas ao movimento geral do ser no mundo. […] Quando digo que vejo o som, quero dizer que à vibração do som faço eco por todo meu ser sensorial.
Sim, abra o peito para agasalhar Teresina em suas contradições e em suas fragilidades, em sua beleza. Sim, abra o peito onde mora o coração. Olhe, repare, ausculte. Não deixe se perder a riqueza sobrante a toda pérola, tome os restos, tome as sobras, embeleze o feio, faça forte os corpos fracos. Agasalhe nossa cidade menina na sua pluralidade, na sua dureza, na sua poesia.
Sim, abra a porta e saia. Caminhe, corra, jogue, pule, brinque, dance e celebre a vida fina, cajuína porque a pergunta ainda não tem resposta: existirmos, a que será que se destina? Sim, abra a porta e acolha outros jogos, outras artes, outras danças, aprenda com o diferente porque destino é um tanto de escolha, um tanto de experiência, um tanto de saber aproveitar as diferenças.
Sim, dê um xeque-mate no preconceito, na tristeza, na solidão e se permita compartilhar, inventar, recriar, co-criar a cidade e a escola. A vida é feita de encontros e os sonhos de futuro também. Jogue pião, bola de gude, uma partida de tênis, vença uma corrida de obstáculos, abrace o perdedor porque “o presente é um presente” e amanhã... talvez seja você que precise de um abraço.
Sim, é maravilhosa a promessa de que os cegos poderão ver, de que a memória humana poderá ser gravada em circuito eletrônico, de que o homem pode ser criado pela manipulação científica, de que as doenças podem ser anunciadas por antecipação, de que combinações podem ampliar os anos de vida, mas as paraolimpíadas já estão aí para nos provar que podemos e sabemos nos reinventar apesar dos limites que nossos corpos nos impõem.
Sim, meninos e meninas, que nossos olhos, ainda que míopes, não deixem de ver. Que a tecnologia não anule a beleza de um gol de placa, feito com arte e manha, único e inimitável. Que a tecnologia não substitua a cumplicidade dos companheiros de time, a troca de saberes das peladinhas num campinho de chão de terra e com rede improvisada. Que a ciência não consiga antecipar a improvisação e o ineditismo do lance que define as diferenças no coletivo ou mesmo nas disputas individuais. Que a competição não nos deixe esquecer da nossa humanidade e sobretudo da humanidade dos nossos outros – aqueles diferentes de nós, que jogam em contraposição a nós.
Sim, que o jogo seja experiência de alegria, de superação, de conquista, sem deixar de ser também experiência de aceitação dos nossos limites, de nossas falhas, de nossas imperfeições. Que a ética do respeito às diferenças seja nosso guia e a nossa manifestação como indivíduos e como coletivo dombarretano.
Fica aqui, então, o convite para jogarmos juntos, passearmos juntos, caminharmos juntos com os olhos míopes do presente e a esperança no futuro, sem esquecer que “o presente é um presente”. Que venha o amanhã! Com foco no esporte, na saúde, no movimento e na vida.
XXXVIII - GINCANA CULTURAL: “TERESINA, MEU AMOR”. REGULAMENTO GERAL – ANO 2023.
Comissão Organizadora da Gincana Cultural "Teresina, meu amor".